A Morte Feliz – Albert Camus

Posted in Uncategorized on K 7, 2009 by marsmorreu

Aquele homem dançando sem parar, aquele corpo de braços cruzados, os espectadores tão calmos, o contraste irônico e esse silêncio inusitado – havia ali, afinal, feito de contemplação e de inocência, entre os jogos um pouco opressivos da sombra e da luz, um minuto de equilíbrio depois do qual parecia a Mersault que tudo ruiria na loucura. Aproximou-se um pouco mais. A cabeça do morto banhada em sangue tinha caído para o lado da ferida e imobilizara-se. Nesse canto retirado de Praga, na luz escassa sobre o calçamento ainda gorduroso, os longos deslizamentos molhados de automóveis que passavam perto, a passagem longínqua de bondes barulhentos e espaçados, a morte revelava-se enjoativa e insistente, e foi seu próprio chamado e seu sopro úmido que Mersault sentiu no momento em que se afastou dali, em largas passadas, sem se voltar. De repente, o cheiro que havia esquecido veio atingi-lo : entrou no restaurante e instalou-se à mesa. O homem estava lá, mas sem o fósforo. Pareceu a Mersault que via algo de perdido no seu olhar. Afastou a idéia tola que se apresentara a ele. Mas tudo girava em sua cabeça. Antes mesmo de fazer seu pedido, fugiu bruscamente, correu para o hotel e atirou-se na cama. Uma dor aguda queimava-lhe as têmporas. Com o coração vazio e o ventre contraído, sua revolta explodia. Nos olhos, afloravam imagens da vida. Algo dentro dele clamava por gestos de mulheres, braços que se abrem e lábios mornos. Do fundo das noites dolorosas de Praga, com odores de vinagre e melodias pueris, chegava até ele o rosto angustiado do velho mundo barroco que lhe acompanhava a febre. Respirando com dificuldade, os olhos de cego e gestos maquinais, sentou-se na cama. A gaveta da mesinha-de-cabeceira estava aberta e forrada com um jornal inglês, no qual leu um artigo inteiro. Depois, tornou a atirar-se na cama. A cabeça do homem estava voltada sobre a ferida e nessa ferida podiam enfiar-se até dedos. Olhou para as mãos e os dedos, e desejos de criança erguiam-se em seu coração. Um fervor ardente e secreto inchava-se nele com as lágrimas. Era uma nostalgia de cidades cheias de sol e de mulheres, com tardes verdes que cicatrizam feridas. As lágrimas irromperam. Crescia nele um grande lago de solidão e de silêncio, sobre o qual corria o canto triste de sua libertação.

11/02/2009

Posted in Uncategorized on K 12, 2009 by marsmorreu

Acordei às 6 da manhã, fiz tudo com a mesma rotina religiosa, não acendi as luzes e coloquei alguma música; umas batidas estranhas num objeto metálico.
Fui para o bar conversar com os – outros – aposentados, sempre me animo para conversar com eles, histórias de passarinhos que fugiram ou que são assassinados por cachorros invasores, pequenos, mas mortais, o que me chamou a atenção foi a ausência do costumeiro atendente do bar e no lugar daquele homem gordo e mal barbeado se encontrava um menino de sete anos, no máximo nove, com um jaleco branco, muito branco para uma manhã de quarta feira, com o logotipo da cachaça Velho Barreiro, desisti do álcool a muitos meses depois de experiências terríveis. Porém, me senti ofendido pela presença do garoto, novo, dizem que o atendente de bar tem de ter maestria no que faz e decidi testar – mesmo sendo desqualificado como “analisador de bartenders” pedi uma coca-cola, que segredo pode haver em servir uma coca-cola vocês podem pensar, existem muitos segredos em fazer qualquer coisa para uma pessoa chata, no caso eu, analisei o movimento dos copos e a agilidade o olhar, um bêbado se importa com o olhar que é lançado para ele – aprendi isso com meu pai.
O garoto mostrou jeito para a coisa e me fez lembrar que por mais de dez anos segui os passos de meu pai, suas manias, seus vícios, compreendi que no exato momento, estar dentro do bar era seguir o que ele fez pela vida toda. Começa-se conversando com os outros e quando você percebe está batendo em sua esposa ou espancando seus filhos enquanto culpa deus por não te dado uma família decente, ao seu ponto de vista, me senti meio abalado por estar ali e voltei para casa.

Inr Matinal – Cassiano
em 11/02/2009

Terça feira com cara de nunca…

Posted in Uncategorized on K 4, 2009 by marsmorreu

– É por um instante, por um instante! Fique sentado, collega. Duas palavras apenas!

Em primeiro lugar, procuramos mostrar um ao outro que somos extraordinariamente delicados e que estamos muito contentes de nos ver. Faço-o sentar-se na poltrona, e ele por sua vez faz com que me sente;  enquanto isso, afagamos cautelosamente um ao outro a região da cintura, tocamos os botões, e é como se nos apalpássemos, temendo  queimar-nos.

Rimos, embora não tenhamos dito nada de engraçado. Sentando-nos, inclinamos um para o outro a cabeça e começamos a falar a meia voz. Por mais que, no íntimo, estejamos mal dispostos um para com o outro, não podemos deixar de dourar nossa conversa com chinesices no gênero de: “Você observou com muita justeza”, ou : “Conforme já tive a honra de lhe dizer”, não podemos deixar de dar gargalhadas se um de nós graceja, ainda que de modo canhestro. Tendo acabado de falar sobre um caso, o colega levanta-se num arranco e, agitando o chapéu na direção do meu trabalho, começa a despedir-se. Apalpamo-nos novamente e rimos. Acompanho-o à ante-sala; ajudo o colega a vestir a peliça, mas ele procura por todos os meios escapar a essa alta honra.

Nota de Tchékhov – Uma história Enfadonha.

marsmorreu

Posted in Uncategorized on K 6, 2008 by marsmorreu


Estava indeciso ao entrar no banheiro, não sabia se usava o telefone ou se tomaria o banho e por questão de ordem decidi tomar o banho para depois usar o telefone que não atrapalharia minha ligação, mesmo sendo quase sempre breve em minhas ligações.

Sentia-me desconfortável alguns minutos antes de tomar essa decisão. A poltrona aonde me sentava, que por tanto tempo foi confortável e agora me parecia um maciço de aço por debaixo de meu rabo, algo que eu gosto pelo conforto está desconfortável e deus cuidaria do resto também, com certeza, então em sete dias eu estaria sentado em uma piscina de fogo e meu rabo arderia feito carvão em uma churrasqueira familiar.

No meu banho, que decidi tomar por questão de ordem, usava uma esponja vegetal para esfregar meus braços e a cada esfregada me sentia mais cansado, penoso de fato, era um trabalho penoso esse de tomar banho, consegui me lembrar de alguém que conheço que diz tomar banho com cereais e então à única coisa que conseguia pensar era em alguém se esfregando com um pão de centeio coberto de grãos fazendo o que eu imagino ser uma esfoliação nutritiva, nesse momento não consegui segurar a excitação, convenham comigo meus amigos: O pão é realmente algo delicioso.

A muito não me sento aqui e faço isso, essa coisa de escrever, não por falta de tentativa admito, mas sim por falta de capacidade, e hoje é um dia especial para que eu consiga escrever porque finalmente por algumas horas voltei a não me importar. Seja com erros de gramática ou qualquer outra coisa ligado a socialização que envolva a palavra agradar ou suas relativas. Acho que é assim que deve existir minha existência literária, criativa, nesse caos que pode instaurar-se em meu ser e que deus tome conta de todo o resto.

Não deixo meu lado preocupado que gostaria de descrever como o lado “bom menino” de ser que me leva a algumas atitudes das quais possivelmente sei que não irei gostar, ou seja, detestaria de sobreaviso.

Minhas vírgulas não se encaixam nos padrões e para quem me conhece pessoalmente ou já me ouviu falar por mais de 10 minutos ininterruptamente talvez saiba que é este o modo mais aproximado do jeito com que dirijo a palavra a outras pessoas.

Conservem-se e destruam os outros. Agora farei minha ligação com certa esperança de que algo maravilhoso aconteça.

Vejo meu cigarro queimado sem nenhuma tragada, meu dia foi perdido.

Posted in Uncategorized on K 6, 2008 by marsmorreu

Ensaio sobre a morte, final.

Não é tão simples quanto parece, não é só meter uma bala na cabeça e partir para o abraço.

É parecido, parecido como marcar um gol e devo admitir que eu odeio futebol.

O objetivo principal de minha vida foi o alcance para a paz e para consegui-lo caminhei pelas mais diversas paragens que minha consciência permitia.

Sentado em minha poltrona, encarando o futuro que escolhi não possuir tive meu primeiro momento de arrependimento, leve e pequeno, mas arrependimento que me levou a pensar que faltava algo para terminar meu trabalho em vida.

Preparei os manuscritos que me faltavam com toda a competência que não havia usado em vida, suguei de meu intimo a capacidade que havia deixado de lado ao conversar com as pessoas e feito pedra descrevi minha morte em um pequeno parágrafo que deixo agora para aqueles a quem interessa realmente, as pessoas que eu mais gostei em vida, ou seja, aquelas que eu nunca conheci.

Dedico agora a todos os que nunca conheci em vida os meus últimos momentos de falso brilhantismo e conto-lhes o que descobri

A paz e a serenidade são opostas, me julguei capaz de possuí-las simultaneamente e agora pago o preço amargo do arrependimento.

A partir do principio de que julguei a paz como o sentimento total de auto-suficiência e indiferença fechei meus olhos para a verdade e descobri que o que eu realmente era serenidade e como os monges que vivem a desferir socos em troncos de madeira morta sinto agora minhas mãos doendo por ter usado as mesmas para cavar o buraco dentro de mim mesmo aonde planejei me esconder, feito um rato de consciência hipertrofiada busquei o pedaço de queijo mais gostoso me esquecendo não somente dos preceitos básicos que liberdade de pensamento como também da idéia de que nenhum homem é uma muralha em meus últimos momentos percebi que a vida não é uma batalha contra a solidão e sim uma luta pela solidificação das idéias, independente de ser o certo ou não, paz não é ser inerte aos acontecimentos, paz é, sim, ser capaz de muda-los e aperfeiçoa-los buscando o prazer do acontecimento.

Ser capaz de criar, aperfeiçoar e lançar algo deve ser o mais próximo de deus, apesar de não acreditar na existência de tal força subjetiva.

Andei até encontrar o ponto final de meu caminho aonde cheguei sozinho e não valeram os meus esforços porque agora me vejo sentado a beira de uma grande montanha denominada serenidade que é a capacidade de se sentir capaz de resolver o que aparecer pela frente sem a ajuda de outrem, criar sua doutrina de vida sem base e intenções ilícitas; Aqui ao pé da grande montanha observo os pequenos pássaros que voam por cima da montanha e sei que nenhum conhecimento, nem o mais grandioso e comparativo que eu pudesse absorver seria equivalente ao que sabe aquela ave que, aprendeu a voar e a caçar e faz de sua vida cada dia uma repetição angustiosa porém o segredo se encontra na indiferença que ela sente por essa rotina.

“Quando noto que sinto inveja de um pequeno animal ao qual nunca dei importância acabo com minha vida”.

E foi assim que abri a porta de meu apartamento e senti o cheiro pútrido das pessoas corroendo-me as entranhas, já não agüentava mais então disse bom dia ao carteiro e fiz a fatal que pergunta que colocou fim a minha vida:

“-Como vai você?”

Como viver muito bem por 30 anos…

Posted in Uncategorized on K 24, 2008 by marsmorreu


Minha cabeça vai estourar, e minhas hemorroidas vão sair para fora…
vou ter de evacuar o curativo, um futuro digno para uma mente não tão brilhante como a minha, como a minha marmita.
Tenho uns espasmos musculares junto com as crises de enxaqueca, são fortes, as vezes minha mão salta e começa a dançar uma Polca.
As vezes meu pés começam a tilintar, e a rezar, e as vezes eu não sinto as pontas dos dedos, assim como nesse momento, isso tudo é um aviso, um aviso de que :
‘ você vai desmaiar ”
tive esses problemas, de um modo geral, e mais sério a 2 anos atrás, hoje em dia eles são menores, e com menos frequência, mas nessas 2 ultimas semana tem sido bem frequente, espero que não continue assim, se não, vou ter que passar por exames médicos, e eu odeio médicos, odeio superstição e tudo que envolve cura, acredito que a doença é o melhor remédio para um ser humano, meus dentes, quando doiam eu mesmo os arrancava com o alicate de cortar unhas  ou eu mesmo me suturava quando me machucava no trabalho, tudo em nome da humanidade.

Sinto a dor e ela vem, eu tomo remédio porque sou fraco, um dia eu vou é não tomar remédio e enfrentar tudo cara a cara e frente a frente, de olho no olho, porque eu sou eu, nada. E ficar repetindo repetidamente desse jeito jeitoso é estranhamente estranho.

até eu errar tudo vai correr ao contrário, se eu não errar eu vou ficar muito
infeliz, demais para mostrar o porquê, de tudo isso, e daquilo e daquilo outro
terem feito de outrem, o detentor dessa fama.

Texto antigo.

Primeira Parte.

Posted in Uncategorized on K 25, 2008 by marsmorreu

Ensaio sobre a morte.

Preparo com minha falta e falsa capacidade, um ensaio sobre a aceitação da destruição vil e sincera da vida.

Não me vejo como alguém espiritualmente qualificado para se falar dos anseios que precedem à morte. E o que é uma morte sem anseios a respeito da continuidade? Explicarei.

Quando pequeno sentia medo da morte que era vista pelos olhos de minha mente com o vazio final, o encerramento da peça dramática em que só você assistia e participava penso que essa sensação é bem comum nos diretores de grandes filmes, Bazin provavelmente aplaudia os próprios filmes e a morte nada mais seria do que a certeza de ter terminado a sua dramática e enfadonha existência, via a morte em desenhos alguns personagens explodiam e voavam pelos ares em pedaços e depois em alguma cena ou episódios seguintes eram demonstrados a consciência desse personagem ponderando sobre a morte e sobre os amigos e parentes que perdeu e a falta que sua pessoa faria para os outros.

Invejei a consciência de um desenho desde o primeiro momento em que percebi a minha falta da mesma.

Passei o resto de minha vida fazendo aquilo que os serem em comunidade devem fazer, disputando. Disputando um lugar ao sol como dizem os filósofos idiotas.

Considero a filosofia como um caminho tortuoso e inóspito ao qual não só devem ser os que têm caráter, pois as pessoas com caráter é que querem saber das coisas para que possam demonstrar com muito fervor a capacidade que possui erguer e enaltecer como fazem os musculosos rapazes de academia, cada músculo de seu cérebro e cara centímetro da sua massa cinzenta recheada com Platão, Diógenes, Cícero e o ultimo celebre em alta de que me lembro Descartes.

Já os que não se consideram com caráter o suficiente para percorrer o caminho dito como “O caminho da iluminação” prefere simplesmente andar pela direção contrária, pelo meio da savannah do próprio cérebro e repartindo com o facão da ignorância cada pedaço desta, olhando de longe os pobres tolos que se dizem eruditos ao repetirem as “palavras sábias” dos sábios de séculos passados, acima de tudo acredito que a inteligência dessas pessoas aplicada no cotidiano garantiria a elas um grande cargo de recolhedor de lixo urbano porque o sarcasmo é necessário quando se mexe com o lixo. Todas as espécies de lixo.

O lixo humano é degradante e um grande contribuidor para o fenômeno plagiado e nomeado “aquecimento pessoal”, um fenômeno no qual somos obrigados a conviver com o lixo passado e recente em um cotidiano sujo e sórdido aonde somos incumbidos de aceitar o pensamento de outras pessoas assim com a natureza aceita o lixo que é jogado pelos seres humanos.

Não foram poucas às vezes aonde o suor me escorre pelas temporas e falta-me o sangue na ponta de meus dedos e sinto o mundo rodar, o espertinho diria: “É amor! É sim! Minha mãe sofreu disso!”. Pois sou obrigado a concordar que é amor, mas um amor latente pela preservação do meu bioma cerebral e não sintético, porque nada nesse mundo é capaz de me reaver o que perdi tendo tantas e tantas conversas estúpidas em minha vida e me lembro até hoje dos pequenos detalhes e estigmas que me foram esfregados, as chagas que nunca vão se curar e que continuam a ser cutucadas. Alguma pessoa ainda tem o despautério de dizer “Deixe me lamber suas chagas!” E não sabem o quão imbecil é o compartilhamento dos sentimentos que só servem para lhe relembrar, e, massacrar de que você precisa dos outros para viver e que a necessidade de contar seus problemas e seus anseios para as pessoas, dividir e levar uma pequena fatia do bolo para as pessoas, ser uma espécie de Madre Tereza ao contrário, com alguma DST, distribuindo seus presentinhos aleatoriamente. O quanto parece imbecil essa divisão de sentimentos esse comportamento sedento de companhia aonde as pessoas se rebaixam a sentir amor e saudade pelos outros que vão em breve, pois a vida não é longa, partir dessa para outra e ainda irão arremessar a culpa sobre o pobre defunto de ter partido e deixado-a nessa situação.

Minha sustentabilidade é pequena porque não me permito crescer ou sonhar. Diga-me é mais fácil cuidar de uma casa pequena sozinho ou de um palácio?

Então adquiro aquilo que, prefiro pensar assim, foi um presente dos céus, uma doença com tempo contado para que tudo acabe, sei dos minutos e segundos, milissegundos que vou viver… Algumas pessoas devem estar a pensar que mudarei meu modo de vida e passarei a ser alguém mais equilibrado, farei isso só que exatamente ao contrário, pois pegarei a pinha picareta da ignorância e cavarei mais ainda o meu buraco de falsa-afirmação e no fundo dele encontrarei o meu outro Eu, que me contara os segredos inócuos da existência pacifica que existe do outro lado, eu não faria uma afirmação falsa quando digo que não sonho com a morte e em como será do outro lado, não sonho porque sei da verdade que me foi dita por mim mesmo.