Vejo meu cigarro queimado sem nenhuma tragada, meu dia foi perdido.
Ensaio sobre a morte, final.
Não é tão simples quanto parece, não é só meter uma bala na cabeça e partir para o abraço.
É parecido, parecido como marcar um gol e devo admitir que eu odeio futebol.
O objetivo principal de minha vida foi o alcance para a paz e para consegui-lo caminhei pelas mais diversas paragens que minha consciência permitia.
Sentado em minha poltrona, encarando o futuro que escolhi não possuir tive meu primeiro momento de arrependimento, leve e pequeno, mas arrependimento que me levou a pensar que faltava algo para terminar meu trabalho em vida.
Preparei os manuscritos que me faltavam com toda a competência que não havia usado em vida, suguei de meu intimo a capacidade que havia deixado de lado ao conversar com as pessoas e feito pedra descrevi minha morte em um pequeno parágrafo que deixo agora para aqueles a quem interessa realmente, as pessoas que eu mais gostei em vida, ou seja, aquelas que eu nunca conheci.
Dedico agora a todos os que nunca conheci em vida os meus últimos momentos de falso brilhantismo e conto-lhes o que descobri
A paz e a serenidade são opostas, me julguei capaz de possuí-las simultaneamente e agora pago o preço amargo do arrependimento.
A partir do principio de que julguei a paz como o sentimento total de auto-suficiência e indiferença fechei meus olhos para a verdade e descobri que o que eu realmente era serenidade e como os monges que vivem a desferir socos em troncos de madeira morta sinto agora minhas mãos doendo por ter usado as mesmas para cavar o buraco dentro de mim mesmo aonde planejei me esconder, feito um rato de consciência hipertrofiada busquei o pedaço de queijo mais gostoso me esquecendo não somente dos preceitos básicos que liberdade de pensamento como também da idéia de que nenhum homem é uma muralha em meus últimos momentos percebi que a vida não é uma batalha contra a solidão e sim uma luta pela solidificação das idéias, independente de ser o certo ou não, paz não é ser inerte aos acontecimentos, paz é, sim, ser capaz de muda-los e aperfeiçoa-los buscando o prazer do acontecimento.
Ser capaz de criar, aperfeiçoar e lançar algo deve ser o mais próximo de deus, apesar de não acreditar na existência de tal força subjetiva.
Andei até encontrar o ponto final de meu caminho aonde cheguei sozinho e não valeram os meus esforços porque agora me vejo sentado a beira de uma grande montanha denominada serenidade que é a capacidade de se sentir capaz de resolver o que aparecer pela frente sem a ajuda de outrem, criar sua doutrina de vida sem base e intenções ilícitas; Aqui ao pé da grande montanha observo os pequenos pássaros que voam por cima da montanha e sei que nenhum conhecimento, nem o mais grandioso e comparativo que eu pudesse absorver seria equivalente ao que sabe aquela ave que, aprendeu a voar e a caçar e faz de sua vida cada dia uma repetição angustiosa porém o segredo se encontra na indiferença que ela sente por essa rotina.
“Quando noto que sinto inveja de um pequeno animal ao qual nunca dei importância acabo com minha vida”.
E foi assim que abri a porta de meu apartamento e senti o cheiro pútrido das pessoas corroendo-me as entranhas, já não agüentava mais então disse bom dia ao carteiro e fiz a fatal que pergunta que colocou fim a minha vida:
“-Como vai você?”