Começa-se uma história por um breve discurso sobre aquilo que se pretende mostrar, narrar e transmitir sentimentalmente às pessoas que a lêem.
Eis a beleza da literatura que narra os sentimentos, que, de tão abrangentes os mais inúteis como que são ditos pela algazarra social sobre a alcunha de “artistas” e meus caros amigos, de tão caros não lhe tenho apreço e nem necessidade para poupar-lhes os olhos de tal zombaria, sim, eu discordo que a dita arte, pintura e teatro, música, dentre outras seja a verdadeira arte, em verdade eu vos digo que de arte a arte não possui nada, com o pode transcrever em algo sólido e imutável o maior dos pintores?
Como pode através de palavras ditas por um artista representar um dos sentimentos mais puros e lindos como o ódio? Agora meu caro leitor deve estar pensando: ‘ Ah , mas esta claro que este não sabe o que diz, surrem-no com os pincéis para que sinta o peso da arte!’. Se você concorda com essa afirmativa lúgubre de que sou insensato a respeito da arte, não o diga antes de saber que os mais belos teatros e mais belas pinturas eu admiro, sim, admiro como já admirei o corpo morto de um cavalo que passou desta para a outra, com certa inveja de não ter mais de relinchar e saltar obstáculos admirei as lágrimas nos olhos de seu algoz-amigo, o jóquei.
Por que não? Eu vos questiono, porque a arte não pode ser comparada a um cavalo que passa dessa para outra? E ademais vos digo que o cavalo é muito mais do que esta arte dita.
O cavalo produziu uma onda de sentimentalismo, copiosamente algumas pessoas choram sorridentes os adversários do fatídico alazão riem isso sim é arte. A arte moldada por deus, que se move e que sente… ademais longo e pesaroso está se tornando este início meio e fim de palavras sem sentido, o mundo não acaba aqui, o mundo ainda está em pé, mas não até o final deste.
“Agradeço a mãe pelo seio e ao pai pelo punho”
Esta é a máxima gravada em minha porta, em um quarto de nada mais do que 8 metros quadrados passo a minha vida e dia após dia eu envelheço, cresço e morro ao mesmo tempo, cada dia mais a respiração e o ócio recreativo, pois nada mais pode ser criado neste mundo, são dificultosas. Vivo dos lucros de meus tios que me adotaram depois da “Tragédia familiar” como eles mesmos dizem, e, sei que gostam de o dizer.
Tragédia foi quando passei dias sem dormir, oh sim, aquilo sim foi uma tragédia, mas perder os pais em um estupro coletivo… este está mais para um dia ruim na vida de uma família, se sono não fosse bom não se dava, mas ninguém tem o direito de tirar-lhe o sono e por esse grandioso motivo que deixo de me relacionar com as pessoas, isso, simplesmente para que elas não me tirem o sono para que nas minhas noites de pensamentos e devaneios com horários programados para inicio e fim, não adentre um desses pares de seios que vemos na rua ou um sorriso de criança que me faria sorrir e dizer: “ah, mas como é belo este mundo de meu deus”… admito estar falando do par de seios, a criança que vá a breca.
Deves pensar que sou mais um destes moribundos tarados que habitam este mundo, só posso lhe confirmar seu pensamento, dizendo que toda a noite eu entro em profunda sedução, pois banho-me em água morna e lavo cada centímetro de meu corpo esquálido com o melhor dos sabonetes (o melhor que meu dinheiro, que é pouco, pode comprar) penteio os cabelos de forma que meu rosto afeminado ganha um ar intelectual e até charmoso, porque depois de tantos anos vivendo somente em minha presença aprendi a admirar este tabique torto que é meu rosto, adentro o recinto que é meramente dividido por uma cortina carmim e só então se começa o meu jogo de sedução, observo, ela está em quatro pés como sempre usa a sua roupa macia que emana o meu cheiro, afinal somos amantes antigos e só de lhe olhar sinto a vontade imensa de aconchegar minha cabeça em meio aos seus dois enormes e deliciosos travesseiros, cobrir-me com seus braços de pano, sentir o abraço gostoso e relaxante da serva de Orfeu, ouvir seu cântico de madeira a ranger pelos cupins que comem suas vísceras, mas agora é que começa o meu drama e nesta praga sei que não existe solução.
Minha companheira está sofrendo, precisarei comprar outra cama… Meus pensamentos são cortados com o toque do telefone, hesito em atendê-lo, não quero abandonar os braços de minha amante, vejo quem liga, atendendo e ela desliga, é cheia de artimanhas, gosta de brincadeiras, permito essa alegria, besteiras juvenis, apesar de jovem tenho a animação de um velho, mas gosto de sua juvenilidade insensata, escuto seu riso sufocado, sinto seu perfume, leve, ácido e suave, noite de lua cheia, quente, abafada, ela me busca me provoca, me fascina, não entendo porque Eu, se ela pode ter outros, os quais dariam a vida por ela, enquanto que eu apenas espero a morte, nunca daria minha vida por ela, ah, vocês devem pensar que ela é linda, mas não, não se enquadra nos parâmetros de beleza estabelecida, tem uns quilinhos a mais, seus dentes não são brancos e alinhados como as das atrizes e modelos que ditam tais parâmetros, posso lhe dizer que é um tanto charmosa e sensual, dona de uma inteligência admirável, eis aí a sua beleza, é como uma tela, onde se podem perder horas admirando a sua profundidade, tentando compreender o que o artista quer expressar, mas nunca saberemos a verdadeira intenção do mesmo, isso só pertence a ele durante a criação, aquele momento de êxtase entre o artista e sua obra, onde há paixão e compulsão entre criador e criatura, já tentei compreendê-la à muito tempo, agora não mais, não me perco meu vasto tempo pensando e analisando as pessoas, se ela foge de sua jaula, escapa de seu pai, pula janelas sem ser vista, seja para assegurar sua alma selvagem ou somente em busca de prazer, não me pergunto mais, sua companhia é agradável, mas as regras desse jogo são minhas, é o meu território.
Ela aparece sorrindo na janela, entra em meu quanto, uma espécie de fada sininho, sem o Peter Pan, sempre em busca de janelas abertas e crianças perdidas, mas essa fada é humana, uma mulher, doce e selvagem, a qual busca companhia, não a julgo, prefiro assim, sem envolvimentos. Apenas a olho entrar, veste-se de forma simples, porém bonita, uma saia florida rodada e uma blusa decotada expondo seu colo macio, fica encostada na parede, como um animal que recua antes do bote ou como um cão que espera a ordem de seu dono, sabe que não gosto que invadam minha vida, mas já me habituei com suas visitas furtivas, olho para sua face, o batom avermelhado contrasta com sua pele caiada, seu olhar desvia do meu, algumas vejo que ela esconde sentimentos por mim, quando sinto que ela quer falar sobre isso a calo com beijos ao ponto de tomar-lhe o fôlego, alguns fios de cabelo se soltam de seu coque, meu olhar para em seu pescoço, nuca, onde costuma perfumar, pontos de sedução, contou-me uma que havia lido numa revista e agora seguia a regra: pescoço, pulso, entre o seio e atrás das joelhos, medo de exagerar no perfume enjoar a si mesma e os outros.